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Depoia de 7 anos vim fazer uma visita ao meu blog. Que surpresa! Vou pensar seriamente em reativá-lo.



Escrito por vera do val / inquieta às 12h44
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Os filhos do marimbondo na Virada Cultural Paulista

Meu livro infanto juvenil editado pelo projeto Dulcinéia Catadora foi lançado na Virada Cultural em Sorocaba domingo, dia 20.

Fico emocionada.

Obrigada Lúcia e Carlos.



Escrito por vera do val / inquieta às 14h57
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TAQUI PRA TI

A ESCOLA DE CHO

José Ribamar Bessa Freire

22/04/2007 - Diário do Amazonas

 

Ele odiava a escola, que definiu como “um mundo de brutalidade”. Foi lá, na escola, que sofreu “um suplício de pequeninas humilhações cruéis”. Sentia-se “encarcerado, agachado, abatido, esmagado”, conforme depoimento que deixou por escrito. Por isso, revoltado, decidiu incendiá-la. Furou o cano de gás e tocou fogo no prédio de quarenta janelas, transformando-o numa fornalha. Depois, se suicidou.

Essa tragédia não ocorreu nos Estados Unidos, mas no bairro carioca do Rio Comprido, num colégio particular, que funcionava em sistema de internato. Américo, o aluno incendiário, era um pau-de-arara, vindo da roça, que vivia solitário, “sem falar com ninguém, cada dia mais enfezado”. Ele é um personagem do romance ‘O Ateneu’, de Raul Pompéia. O incêndio simbólico só aconteceu no papel. Mas sete anos depois, na vida real, o autor se suicidou numa noite de natal, com um tiro no coração.

“Eu tinha as pernas roxas dos golpes; as canelas me incharam”, conta o narrador, descrevendo os castigos, os bedéis, as aulas chatas, os exames, os boletins, o sistema de delação, a organização militarizada, o uniforme, a disciplina, a discriminação, a sineta tocando, o diretor violando a correspondência dos alunos. Américo, o caipira, fugiu daquele inferno, mas foi recapturado. “Olhavam todos para ele como para uma fera respeitável”.  Foi aí, então, que decidiu incendiar o colégio.

Xerife da turma

No romance de Raul Pompéia, escrito em 1888, podemos encontrar algumas pistas para discutir a tragédia ocorrida nessa segunda-feira, no campus da Universidade Virginia Tech, nos Estados Unidos, quando o estudante sul-coreano, Cho Seung-hui, assassinou 32 colegas. Por que fez isso? Seguramente não foi porque é um “monstro calculista”, como berrou em manchete irresponsável O Globo, sugerindo que a tragédia teria causas individuais e não sociais.    

Nos Estados Unidos, vira-e-mexe, tem sempre alguém cometendo assassinato em massa. O curioso é que o palco, embora já tenha sido um cinema, um shopping e até um prédio da NASA, na maioria das vezes é uma instituição de ensino. Em 1966, 15 mortos e 30 feridos na Universidade do Texas. Em 1999, 13 mortos na Columbine High School. Nesse momento, diante da onda de ameaças, muitas escolas americanas fecharam suas portas, enquanto buscam alternativas de segurança.

Por que essa escolha preferencial pela escola? Qual a responsabilidade da instituição na formação desses “monstros”?  O especialista em segurança, Bene Barbosa, presidente do Movimento Viva Brasil, acredita que essa preferência acontece porque nas universidades as pessoas estão desarmadas, o que dá a certeza aos assassinos de que não haverá resistência. Tal análise sugere que a solução seria armar alunos e professores, já que o lobby da indústria armamentista não permite desarmar a sociedade americana. 

Parece, no entanto, que o buraco é mais embaixo, como se pode concluir do debate entre vários professores que fazem parte da comunidade virtual UERJ XXI, entre os quais Armando Tavares, João Andrade, Henrique Sobreira, Gilberto Moraes, Ítalo Moriconi e Aníbal Moura, esse último candidato declarado a reitor.

Com ironia, o professor Andrade sugeriu que cada sala de aula guardasse uma pistola e um fuzil AK carregados, em gaveta fechada com uma chave em poder do professor, outra cópia em poder de um aluno, denominado de "xerife da turma" ou ainda "fuhrer local" e uma terceira com o "vice-fuhrer". Recomendou ainda que para manter o princípio da transparência, as armas seriam compradas através de licitação publica e submetidas a testes prévios de facilidade de recarga, potência destrutiva e ergonomia.

Aníbal Moura, que trabalhou quase cinco anos em universidades nos EUA, escreveu: “Lá a humilhação é quase institucional, com mecanismos de exclusão abomináveis. Lembram sempre que você não é um cidadão americano e que, independente do trabalho que está realizando, você é inferior. O imigrante se esconde, apaga tradições, prefere estabelecer relações subalternas. Há enorme violência neste processo, que conta com a humilhação como o seu momento de síntese. Você não perdoa a humilhação, engole seco, dói por dentro. Continuo odiando o que Cho fez, porém considero que é na imagem do mundo que ele se tornou possível”.

continua



Escrito por vera do val / inquieta às 15h39
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Cho, um scholar

 

Cho saiu da Coréia com oito anos. Da mesma forma que Américo, de nome emblemático, Cho era um menino quieto, calado, embora não agressivo. “Ele não falava direito, mas era bem comportado”, disse o avô. Alguns achavam até que era autista. Acontece que a escola americana, onde estudou, desconhecia e desprezava sua língua materna, seus valores, sua cultura, impondo-lhe o inglês, uma língua que não dominava. Por isso, não falava, sendo discriminado e “olhado como uma fera”.

“No cruel sistema de ensino dos EUA, em que as crianças são divididas entre “winners” (vencedores) e “losers” (perdedores), Cho era um fracassado”, lembra Bárbara Gancia em sua coluna na Folha de São Paulo. O grito desesperado que ele deixou no manifesto multimídia nos dá alguns elementos sobre a necessidade de repensar o modelo vigente de escola. O Globo se limita, porém, a condená-lo, publicando o depoimento sob o título “Testamento de um Monstro”, em letras garrafais:

 “Vocês ferraram meus irmãos e irmãs. Decidiram derramar meu sangue. Me encurralaram e me deram apenas uma opção. Vocês sabem o que é sentir quando cospem no seu rosto e o lixo é empurrado por sua garganta abaixo? Vocês destruíram meu coração, violentaram a minha alma e queimaram a minha consciência. Vocês sabem o que é ser humilhado e empalado num cruz? Graças a vocês, eu morro como  Jesus Cristo, para inspirar gerações de pessoas fracas e indefesas”.

Colecionei depoimentos dramáticos de índios que descrevem como a escola monolingüe tentou devorar suas identidades, discriminando seus saberes, suas línguas, suas práticas religiosas, sua música, seu jeitão de ser, chegando a levar alguns ao suicídio. Discuti essa questão em 1979, num artigo no jornal Porantim, intitulado “A Escola destribaliza, mata e come ou como matar índios com giz e apagador”. Lá, cito o antropólogo belga Marcel D´Ans, que em “Linguagem e Patologia Social” relaciona a cultura e a língua materna com o psiquismo dos indivíduos, criando a categoria denominada ‘souffrance’ para explicar certas alterações funcionais.

A ‘souffrance’ ocorre quando alguém é obrigado a abandonar sua cultura e língua materna, num contexto em que elas são discriminadas: “uma política de repressão cultural, cuja forma mais visível é impedir o uso da língua materna, gera um desespero que pode chegar, nos casos mais graves, a condutas violentas e/ou suicidas”. Não se trata, portanto, de uma anomalia ou doença individual. Cho não é um monstro. Monstruosa e doente é a sociedade que o produziu, presidida por George Bush, a quem O Globo não chama de “monstro”, embora seja responsável por mais mortes do que todos os assassinos em massa na história dos Estados Unidos.



Escrito por vera do val / inquieta às 15h39
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Procusto      

 Vivia no fundo de uma grota, comia a caça e o mel silvestre. E pastoreava os pássaros e as ovelhas. E a própria imagem. Pois se mirava nas águas do regato e elas respondiam: – era belo e forte e bom.

         Deitava-se em sua robusta cama de madeira, talhada à medida de seu corpo. Vivia só. Mas pensava nos outros homens, cujo tropel ouvia ao longe, quando passavam pela estrada.

         Seriam como ele: – belos, fortes e bons?

         Passou a tocaiá-los. E com um laço enorme os aprisionava. Levava-os, sem maiores explicações, à sua grota. Deitava-os em sua robusta cama de madeira, talhada à medida de seu corpo. Se eram menores, garroteava-lhes o pescoço e as pernas, para que esticassem. Se eram maiores, amputava-os, ao tornozelo, à panturrilha, onde conviesse, para que lograssem suas próprias dimensões. Pois queria fazê-los todos à sua imagem e semelhança: fortes e belos e bons.

         Não acreditaram que fosse um deus. Caçaram-no, prenderam-no e mataram-no como ladrão.

Geraldo Mello Mourão



Escrito por vera do val / inquieta às 18h54
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Acho que nunca deixei esse meu Rose tanto tempo sem postar. Passou da hora. Na verdade ando envolvida com novos projetos, o lançamento do meu livro e coisa e tal. Para quem ainda não sabe: acaba de chegar às melhores livrarias do país meu “O imaginário da floresta”. Editado pela Ed Martins Fontes são lendas amazônicas compiladas, em longo processo de pesquisa, e reescritas. Uma bela resenha sobre o livro, feita por Marcelo D’Ávila, pode ser encontrada em Rosebud Livros.

Agora é a correria. Vender é preciso.

Outro livro, o “Histórias do rio Negro” deve estar tb nas prateleiras em junho. Além disso o “ Os filhos do marimbondo” está sendo editado pelo Projeto Dulcinéia Catadora. E finalmente, pelo mesmo projeto, um outro livro ainda sem nome definido no qual tenho a alegria de dividir páginas com Marcelo D’Ávila.  É a segunda vez que trabalhamos juntos (temos um livro feito a quatro mãos editado pela Escala) e o prazer de dividir com Marcelo é sempre uma aprendizagem.

Abaixo uma amostra do Imaginário.



Escrito por vera do val / inquieta às 12h00
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O Vagalume

Lenda do povo Aikaná, habitantes da região do rio Guaporé, Roraima. População sobrevivente: 180 pessoas.

 

Contam os velhos do povo Aikaná que antigamente o vagalume não tinha luz. Quando a noite era sem lua, voejava pelas aldeias iludindo as cunhãs mais bonitas e engravidando a todas. Os pais e maridos procuravam por ele enraivecidos, mas naquela escuridão era impossível encontrá-lo. Durante o dia os guerreiros saiam em bandos pela mata, enfiavam-se nos esconderijos mais sombrios, e nada de achar o sedutor. Camuflado, ele escapava e ria.

Um dia o vagalume engraçou-se com a filha de Poré, o Curupira dos Aikanás. Tanto fez que a moça acabou apaixonada e de bucho cheio. Curupira não era de brincadeira, ficou furioso, fez mandingas, rezas, derribas no alto da terra. O céu iluminou-se, a terra tremeu, raios para todos os lados e chuva de estrelas. Poré pegou um pedaço de estrela e esperou o vagalume, escondido perto da rede da filha. Quando ele chegou desprevenido e começou a cantar o amor, Poré, de um salto, grudou-lhe o pedaço de estrela na bunda.

Desse dia em diante o vagalume se deu mal. Cada vez que se mete a conquistar as cunhãs desavisadas e se põe de bunda para cima, os pais e maridos podiam vê-lo de longe e matá-lo.

 

vera do val



Escrito por vera do val / inquieta às 11h50
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A verdade sobre as nações indígenas

 

Se alguém deve reclamar de ameaça à soberania somos nós, que, hoje, temos apenas 13% de um território que já foi 100% indígena

 

PODERÍAMOS aqui elencar uma série de dados reais sobre a Amazônia, sobre os povos indígenas e sobre os ganhos que têm a sociedade e o Estado brasileiro por reconhecer seu multiculturalismo. Vamos deixar isso para que Helio Jaguaribe o faça. Ou, então, continue publicando esses artigos burlescos e oportunistas ("Tendências/Debates", 19/ 2) que só servem de pretexto para denegrir a imagem dos povos indígenas.

Primeiro, a Amazônia nunca esteve abandonada, não pelos povos indígenas, que desde sempre estiveram e estão lá, guardando as fronteiras e garantindo a integridade territorial do nosso país. Perguntamo-nos: Quem é Helio Jaguaribe para falar de nacionalismo e de perda da Amazônia, para nos acusar de formar nações com a ajuda dos americanos para reivindicarmos nossa autonomia etc.?

Para informação de Jaguaribe e de mais algum nacionalista de plantão que busca culpados para a suposta "perda da Amazônia", não estamos construindo nações -nós somos nações indígenas!

Não com a ajuda dos americanos, mas porque os cerca de 480 mil índios brasileiríssimos são sobreviventes de uma história de extermínio, de massacres, de chacinas e de toda sorte de discriminação e preconceito de que um povo pode ser vítima, mas que, teimosamente, sobrevive num país que, em pleno século 21, ainda abriga pensamentos e conceitos tão retrógrados sobre o direito à diferença, explicitando a intolerância que sempre caracterizou as relações de uma minoria deste país que detém o poder econômico e político em detrimento de uma maioria de diferentes.

Preconceito esse que nos faz sofrer cotidianamente todos os tipos de violência, que nos faz diminuídos diante de tanta impunidade, que faz nosso sangue espesso em nossas veias finas que já não suportam tanta revolta.

Somos apenas 480 mil graças a uma errônea e equivocada política de extermínio adotada durante séculos e que matou milhões em só 500 anos. Somos nações, somos povos, sim. Falamos mais de 180 línguas diferentes.

É mais do que justo que o Estado que nos submeteu aos horrores do extermínio assuma a responsabilidade de proteger o que ainda resta de nossas culturas, crenças e tradições e os parcos territórios dos quais usufruímos.

continua



Escrito por vera do val / inquieta às 21h25
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Não sabemos a que "americanos" se refere Jaguaribe. Se for aos estadunidenses, são do país mais resistente ao reconhecimento dos direitos humanos coletivos dos povos indígenas nos fóruns internacionais, como a ONU e a Organização dos Estados Americanos, que estão discutindo e formulando as declarações internacionais sobre os direitos dos povos indígenas.

Nesses fóruns, como líderes indígenas, participamos em condições de eqüidade e igualdade com o Estado brasileiro, representado por seu corpo diplomático, os conceitos de soberania, integridade territorial, direito à livre determinação dos povos indígenas, direitos e soberania sobre suas terras, territórios e recursos naturais, entre outros. Discutimos tais direitos fundamentais para garantir um futuro digno aos povos indígenas e estabelecer, entre o Estado brasileiro e os povos indígenas, novas relações que tenham como base o respeito mútuo.

Se alguém deve reclamar da ameaça à soberania somos nós, que, hoje, temos apenas 13% de um território que já foi 100% indígena e tivemos roubados e saqueados pelo menos 87% do nosso Brasil indígena.

Somos os responsáveis por ainda haver grandes riquezas nas terras que nos empresta o Estado brasileiro porque respeitamos, preservamos e cuidamos delas. Jamais permitiremos nenhum tipo de intervenção estrangeira nos territórios que ocupamos.

Esses territórios são as nossas casas e a única garantia de vida que resta aos nossos filhos, de quem, ao entardecer de cada dia, olhamos bem no fundo dos olhos e damos a esperança de ver no dia seguinte seus territórios desocupados e livres de invasões, para o exercício pleno e efetivo do seu direito humano à vida.

Um artigo como o de Helio Jaguaribe é uma afronta às nossas árduas lutas pela conquista, e não simples "concessão", de cada palmo dos nossos territórios tradicionais. É uma afronta aos nossos povos e à memória dos nossos grandes líderes que foram assassinados pelo Brasil afora em nome da liberdade de viver como povos diferentes e dignos.

 

Alezene Kaingáng e Ubiratan Wapichana

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Alezene Kaingáng, socióloga, e Ubiratan Wapichana, advogado, são técnicos do Warã Instituto Indígena Brasileiro.



Escrito por vera do val / inquieta às 21h24
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Um puteiro chamado Brasil

Soldado dos EUA faz turismo sexual no Rio

Agência de turismo norte-americana, incentivada pelo Departamento da Defesa do país, oferece "balada quente" no Brasil

Em programa de "descanso e recuperação", militares americanos que serviram no Iraque passeiam no Rio em busca de mulheres e festas

 

Vinícius Queiroz Galvão

Folha de S Paulo / 4/2/2007

 

Ah, as mulheres que o tenente americano Mark Browne conheceu neste verão em Copacabana! Como boa parte dos militares dos EUA, ele serviu no Iraque por 12 meses e, num programa de incentivo do Departamento da Defesa, veio parar no Rio, em pleno janeiro. A história está só começando.

Segundo o site do Exército dos EUA, a meta do programa Descanso e Recuperação é "dar alívio aos servidores e livrá-los do estresse da missão de combate". Tudo começa na agência Tours Gone Wild, de Miami, que promete "a viagem da sua vida". Mas turismo é o que menos importa. No site, a propaganda é mulher, festa, mulher, mulher, festa, outra festa, outra mulher. Não necessariamente nessa ordem. Quer mais?

O pacote, oferecido a partir de US$ 1.300 (US$ 3.000 nesta alta estação), descreve: "É difícil viajar para um país diferente e saber as baladas quentes, os lugares que os baladeiros brasileiros vão. Você não quer perder a noite inteira buscando um lugar e muito menos ficar na fila atrás de gente que não fala inglês e que não deixará você entrar. Nosso serviço de festas VIP é a solução, com transporte, entrada, fura-fila, acesso à área VIP e guia particular".

continua



Escrito por vera do val / inquieta às 10h27
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Um puteiro chamado Brasil

Para convencer os clientes (os militares americanos no Iraque, lembra?), fotos. De quê? Mulher, festa, mulher de novo, outra festa, outra mulher.

Na galeria de imagens, mais mulheres, aparentemente brasileiras, em poses sensuais ou simulando o ato sexual.

Em inglês, "party" (festa) também é empregado no sentido de usar drogas, em linguagem informal. "Dar um teco", embora a agência não deixe claro (nem poderia).

E o Pão de Açúcar, o Cristo, a Lagoa, o passeio em jipe pela Rocinha, as outras atrações do Rio? O lugar é Copacabana. Melhor: a orla de Copacabana.

Colega de batalhão do tenente Mark Browne, Brian Feldmayer (os dois têm 25 anos), explica ao jornal britânico "The Guardian": "Já vi o suficiente [de favelas] no Iraque. A maioria dos meus amigos está ansiosa para vir ao Rio. Eles já ouviram falar do crime, de todos os problemas. Mas quando digo o que acontece nessa viagem... Garanto que nos próximos dois anos 65% deles virão".

Na página de testemunhos de clientes, Andrew P., 31, de Denver, diz: "Fomos às boates mais quentes e conhecemos as mulheres mais gostosas. Altamente recomendado". Abaixo, o tenente Kirk B., 21, completa, numa foto ao lado de duas mulheres: "Depois de passar o pior ano da minha vida no Iraque, viajar ao Rio foram as melhores férias que já tive".

 

Meu texto abaixo foi uma coincidência. Nunca a ficção se aproximou tanto da realidade.

Vera do Val



Escrito por vera do val / inquieta às 10h26
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Um puteiro chamado Brasil

Brasil aposta no monitoramento enquanto madeireiras avançam na Amazônia

 

Um plano do governo brasileiro que será implementado neste ano levará o corte de madeira em grande escala pela primeira vez ao coração da floresta Amazônica, em uma aposta calculada de que os novos esforços de monitoramento compensarão qualquer risco de aumento da devastação.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma tentativa de criar a primeira política florestal coerente, eficaz, do Brasil, começará a leiloar direitos de corte de madeira em grandes trechos da floresta tropical. Os vencedores dos leilões não receberão títulos das terras nem o direito de explorar outros recursos além da madeira, e o governo diz que serão monitorados atentamente e que pagarão os royalties de suas atividades.

 

Em novembro, Lula se queixou de todos os "entraves" que tem com o meio ambiente e com "a questão dos índios brasileiros", que ele alegou estarem atrapalhando o desenvolvimento do Brasil.

 

Larry Rohter -  Matéria publicada noThe New York Times - 14/01/2007

 

 

O dilema do Brasil: permitir que a destruição ampla - e lucrativa - da floresta tropical continue ou intensificar iniciativas de preservação.

 

No tempo em que você levará para ler esta reportagem, uma área de floresta equivalente a 150 campos de futebol terá desaparecido. As forças do mercado globalizado estão invadindo a Amazônia, acelerando a destruição. Nas últimas três décadas, contam-se às centenas as pessoas que morreram em conflitos por terras; um número incontável de outras vive sob o império do medo e da incerteza, com as vidas ameaçadas. Nessa fronteira agrícola sem lei e dominada por armas, motosserras e tratores, os funcionários e agentes do governo podem ser corruptos e ineficazes ou então mal equipados e desprovidos de recursos. Agora, produtores de soja estão se juntando aos madeireiros e aos criadores de gado, intensificando o desmatamento e fragmentando ainda mais a imensa floresta tropical do Brasil.

continua



Escrito por vera do val / inquieta às 11h02
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Um puteiro chamado Brasil

Brasil, país do futuro.

 

A Sarará não teve como recusar. Veio ministro, figurão, uma gente vestida de granfino, até um Big Boss lá dos Esteites veio também subindo o rio e enfrentado carapanã. E cada um com seu argumento.

- O Brasil tem que participar - dizia o americano.

- É um esforço para o bem de todos. – falava o outro, com sotaque francês.

- Vocês passarão para a Historia, - era o japonês sorridente.

- Além disso, é um patrimônio da humanidade. Está na hora de dividir. – engrolava o inglês  encharcado de uísque.

Dona Joana matutava. Sabia que o seu puteiro era famoso, afinal muita gente importante passava por ali. Só não imaginava o quanto. Desde que aquilo existia era um tal de atracar barco e aparecer gente vestida de tudo. Lembrava dos mais antigos, de coronel a missionário, de cientista a explorador, até salvador da pátria. E agora essa! A casa cheia de bacana, uma gente esquisita, falando enrolado. Mas mudar para as estrelas? Aquilo era demais para sua cabeça.

Os homens insistiam. O programa espacial estava de vento em popa. Tinha astronauta girando para tudo que era lado, o céu empesteado de foguete indo e vindo. Nem olhar para a Lua sossegado se podia mais. Perigava, de repente, despencar uma titica qualquer na cabeça. Sim, porque essa gente de primeiro mundo estava lá se lixando para os que estavam aqui embaixo. Ainda mais se a titica caísse abaixo do Equador.

Era uma realização do G7, dos grandões e agora tinha chegado à hora do Brasil contribuir.

 A cidade na Lua era um portento. Toda prateada, cheia dos confortos e elegâncias que rico é sempre metido a besta. Tinha de um tudo, desde uma fábrica da coca cola, contribuição dos americano, até os franceses que já tinham três padarias e os alemães uma salsicharia de dar gosto. Os japoneses montaram um mix de Sansung e Mitsubishi, a Inglaterra, para se exibir, levara uma destilaria escocesa e a Itália contava com meia dúzia de cantinas espalhadas. Sem esquecer que os canadenses já estavam abastecendo os açougues. Vaca brasileira nem pensar.

Mas não tinha puteiro!!

continua



Escrito por vera do val / inquieta às 11h01
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 A gente sabe que homem é tudo igual, pode ser americano emproado ou jagunço do sertão pernambucano, na hora do vamos ver ficam pianinhos. Não havia adiantado muito aquele negócio ensaiado de realidade virtual, plastificada e com cheiro de desinfetante ou coisa parecida. Nada disso. Puteiro é puteiro, não se fala mais nisso.

Foi feita uma reunião nas Bahamas cheia de líderes, representantes dos moradores, psicólogos, especialistas. Tinha economista e político também que isso não pode faltar nem em reunião de condomínio, que se dirá em reunião em lugar paradisíaco. A discussão demorou dias. Os homens na Lua andavam meio macambúzios. Isso preocupava. A moral em baixa, nem o basebol ou o golfe estavam resolvendo.

- Queremos putaria - dizia o de bigodes e barrigudo, representante dos moradores. - E da boa, da melhor que há!

Pensaram em convidar a Holanda, com as famosas ruas de Amsterdã, mas o dono dos bigodes torceu o nariz.

- Muito raquíticas. Queremos putas com fogo nos olhos e requebro na bunda. Puta com sustância. Encorpada!

Pensa que pensa e se coça a cabeça. Por onde começar a putaria? O inglês, trançando as pernas, que inglês que se preze nunca está sóbrio levantou-se e dirigindo-se para o grande mapa enganchado na parede disse:

- Aqui! - E sapecou o dedo na Amazônia.

Todos os rostos se iluminaram com um sorriso alvar e inocente. Claro! Sem dúvida! Em que país tantas facilidades? Era chegar e levar. Afinal essa gente vive esperando o futuro e a nós aqui vivemos é no presente mesmo.

continua



Escrito por vera do val / inquieta às 11h00
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conclusão

Imediatamente mandaram emissários para Brasília, muitos e muitos presentes que disso não podiam esquecer, sabiam como a coisa funcionava com a flor do cerrado. O Presidente ficou todo vaidoso, o ministério alvoroçado.

- Um convite para o G7!  Nosso país construindo o Futuro – anunciou em rede nacional – A contribuição brasileira para o mundo!

- Mas não vai haver gritaria? – alertou um ministro recém chegado, ainda novato.

- Ora, ora, - o presidente cofiou a barba e deu um risinho. - Qualquer coisa a gente diz que não sabia. E está sobrando lá, porque não dividir um pouco? Além de tudo aquilo é a casa da mãe Joana.

Um ecologista de plantão ainda sugeriu:

- Podemos inventar umas exigências. Para cada puta levada eles têm que plantar mais uma. – e sorriu amarelo.

E despencaram todos na casa de Dona Joana Sarará. Gringo e tupiniquim, uma mixórdia. Ela ficou atarantada, mas deslumbrou mesmo, de cair o queixo, quando o Presidente chegou, barbudo e ciciante, falando da importância do acontecimento. Veio com uma comitiva de doutor de dar gosto. Tinha engravatado saindo pelo ladrão.

- Vamos lotear... Vamos lotear.... - dizia um assessor tão afoito que precisou levar uma cotovelada para se mancar.

- Isso é a segunda etapa – sussurrou-lhe ao ouvido um político local.

- Yes, yes – cambaleava o inglês batendo amigavelmente nas costas do político. Espalharam-se por ali verificando o terreno e já adiantando o inventário. Toc.. Toc... Era o japonês deslumbrado batendo com o nó dos dedos no tronco de uma gigantesca sumaúma. O americano avaliava uma imensa castanheira. O francês, que não dorme de touca, logo reconheceu o mogno antigo. O inglês, que continuava bêbado, mas esperto, o empurrou e disse:

- Sai daí. Arreda que eu vi primeiro.

- Legítimo, Doutor. - Era o político tupiniquim todo cheio de sorrisos para o filho da velha Albion.

E toma discurso, e deita falação. E oferece mais presente, machados facas e bugigangas similares, que isso desde o tempo dos missionários e dos índios nunca caiu de moda e ainda funciona maravilhosamente. Uns intelectuais metidos nos brios ainda pensaram em argumentar. O Presidente com uma penada lhes aumentou a verba e eles sem tugir nem mugir saíram de fininho.

Dona Joana não resistiu!

Botou todo mundo nos bofes para arrumar a bagagem. Foi um corre corre danado, até Vagalume, o cachorro de estimaçao, embarcou nessa.

 

Pois a coisa aconteceu assim. Primeiro as putas, depois as árvores, os passarinhos, os bichos.

E hoje o que nos resta é olhar atentamente para a Lua e ver as ancas da Caolha, rebolando, para construir o Brasil Grande.

 

Vera do Val



Escrito por vera do val / inquieta às 10h58
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Aos amigos um grande abraço de Natal e votos de esperança e alegria para 2007.



Escrito por vera do val / inquieta às 10h30
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Hoje, 18 de Dezembro, tenho um aniversariante muito amado e nunca esquecido. A quem não tenho maneira de parabenizar diretamente. Então vai por aqui. Um beijo saudoso e um tango de Gardel.

 

Por uma cabeza

 

Por una cabeza

De un noble potrillo

Que justo en la raya

Afloja al llegar.

Y que al regresar

Parece decir

No olvides, hermano,

Vos sabes no hay que jugar.

Por una cabeza

Metejon de un día

De aquella coqueta

y burlona mujer

Que al jugar sonriendo

El amor que esta mintiendo

Quema en una hoguera

todo mi querer.

Por una cabeza

Todas las locuras

Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura.

Por una cabeza

Si ella me olvida

Que importa perderme

Mil veces la vida

Para que vivir.

Cuantos desengaños

Por una cabeza



Escrito por vera do val / inquieta às 02h13
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Yo jure mil veces

No vuelvo a insistir.

Pero si un mirar

Me hiere al pasar

Su boca de fuego

Otra vez quiero besar.

Basta de carrera:

Se acabo la timba,

Un final reñido

Yo no vuelvo a ver.

Pero si algún pingo

Llega a ser fija el domingo

Yo me juego entero

¡ que le voy a hacer ¡

Por una cabeza

Todas las locuras

Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura.

Por una cabeza

Si ella me olvida

Que importa perderme

Mil veces la vida

Para que vivir.

 

Lepera/ Gardel

 



Escrito por vera do val / inquieta às 02h09
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Gentileza Ana Peluso



Escrito por vera do val / inquieta às 10h27
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Filho de peixe.....

Bruna é filha de Marcelo D’Ávila e Claudia Albornoz.  Marcelo, nosso querido amigo, poeta e prosador admirável. E Bruna, que gostaria de se chamar Amanda, acaba de ganhar seu primeiro concurso literário. Com apenas 10 anos.

Parabéns, querida.

 

 

O Mistério dos Presentes

 

Os Natais de minha família sempre foram muito misteriosos, pois a pergunta que não queria calar era:

Quem colocava os presentes embaixo da árvore de Natal?

Eu e meu primo sempre tentávamos descobrir quem fazia isso... E tínhamos muitos suspeitos! E o primeiro da lista era...

O meu avô!

Isso porque em um de nossos Natais, o tal Papai Noel tinha um anel igual ao anel de formatura do meu avô! No Natal seguinte, meu primo reparou nos sapatos do bom velhinho... Iguais aos de meu avô.

E nos dois Natais citados acima, meu avô não havia comparecido! Essa era outra pista...

Mas teve um ano (acho que foi 2001) meu avô começou a comparecer nos Natais e o Papai Noel que aparecia era aquele que sempre chegava nos tele-mensagens e ficava só 15 minutos... Mas o mistério de quem arrumava os presentes todos bonitinhos embaixo daquele pinheirinho enfeitado ainda não havia sido desvendado!

Até que, no Natal de 2004, eu e meu primo resolvemos nos esconder na sala, embaixo de uma mesinha ali no canto da sala... Mas, como queríamos ficar escondidos no mesmo lugar, eu acabei ficando de costas e, ainda por cima, na frente do meu primo... Então, não deu para ver.

E o mistério dos presentes nunca foi solucionado.

 

Bruna Albornoz D'Ávila. 10 anos. Concurso Histórias de Natal, do jornal Zero Hora de Porto Alegre.

 



Escrito por vera do val / inquieta às 20h34
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O fantasma da titia

 

Naquele domingo de setembro, fazia um calor infernal. A casa da rua 3, na Cohab-Am do Parque Dez, era um forno micro-ondas. A família inteira estava socada no quarto vendo televisão, em volta do único ventilador, cujo barulho dava a impressão de que ia levantar vôo. Serginho, sete anos, saiu um instantinho para ir beber água na cozinha. Voltou correndo, ofegante, com os olhos esbugalhados, gritando:

- A titia está conversando com as garrafas.

Todo mundo saiu correndo pra ver de perto. Efetivamente, lá estava a titia, com a porta da geladeira aberta, dialogando com cada uma delas. Naquele momento, segurava uma de vidro verde pelo gargalo, como se quisesse enforcá-la:

- Estou zangada! Muito zangada com você, sabia? Você fez tolices! To-li-ces! Quem mandou ficar aqui na frente, sua enxerida? Seu lugar é lá atrás. Você ainda não esfriou e tem que esperar sua vez. Troque de lugar com sua irmã. Anda!

Na medida em que falava, titia deslocava suas interlocutoras, como se fossem peças num tabuleiro de xadrez. Pegou com as duas mãos uma amarela, de plástico, pela cintura:

- Não se esconda não, sua gorduchinha. Eu já te vi. Vem pra cá pra frente, vem! Você já está no ponto, ge-la-di-nha!

 

Botar o quê, Belão?

 

A titia botou na cabeça que era a responsável pelo suprimento de água gelada para toda família. Tornou-se, por auto-nomeação, a titular da Secretaria de Recursos Hídricos. Passava o dia inteirinho enchendo com água do filtro as garrafas que eram esvaziadas. Depois, ia arrumando todas na geladeira, do seu jeito, numa certa ordem, fazendo um rodízio, colocando sempre as mais geladas na frente.

No início, todo mundo achou bom e se aproveitou. Aquele era, sem dúvida, um serviço de utilidade pública, sobretudo em período brabo de calor, numa casa cheia de crianças e adolescentes e que ainda por cima recebia muitas visitas. Mas depois a coisa tomou outro rumo, virou mania, obsessão mórbida. Titia armava um escândalo quando descobria garrafas fora do lugar. Era um foco permanente de conflitos.

Só é possível explicar o comportamento da titia, se entendemos por que é que ela ficou solteirona, no caritó. A culpa foi de dois vizinhos de infância, o Belarmino e - olha só que coincidência! - o Nelson Prodent. Os dois moleques queriam a mesma coisa. Nelson se declarava: “Raimunda, você é feia de cara, mas boa de perna”. E Belarmino, mais obsceno, vivia provocando: - “Raimundinha, deixa eu botar na tua bundinha?”. Ela, ingênua, respondia: - “Botar o quê, Belão?”.

Foi aí que vovó Marelisa compreendeu que tinha que interná-la no convento das Adoradoras do Preciosíssimo Sangue de Cristo, convencida de que sua filha era demasiado inocente pra viver em um mundo tão imoral e prevaricador. Titia vestiu o hábito e jurou os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência. Viveu, enclausurada, 35 anos, protegida das maldades mundanas. No final da vida, já doente, alquebrada e moça velha, o convento a devolveu para a família. Ela foi morar na casa da sobrinha Heloísa, casada com um santo, o Neném, e os seis filhos do casal.

Foi lá, leitor (a), que nós a encontramos, enchendo garrafas. Titia tentava colocar ordem num universo confuso, desordenado e caótico, antropomorfizando alguns objetos de uso doméstico, como as garrafas da geladeira, os únicos seres que a escutavam, lhe davam atenção e não a interrompiam quando falava.

continua



Escrito por vera do val / inquieta às 10h10
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conclusão 

A mão voadora

 

- “A titia tá ficando doida” – diagnosticou o Neném, quando descobriu que ela havia batizado cada garrafa com nome de gente. Tinha garrafas chamadas Graziela, Priscila, Bia, Zuleika, Janaína ou simplesmente Jana. Onde já se viu conversar com garrafas? O Neném decidiu, então, acabar com aquela marmotice de uma vez por todas. Jogou fora aquelas que tinham cores e tamanhos diferentes e comprou todas de plástico, iguaizinhas, para impedir sua identificação.

Ah, mas titia era danada. Sabem o que ela fez? Com o esmalte vermelho da Sandrinha, de pintar unhas, numerou cada garrafa de 1 a 11. Parecia até time de futebol. Deu nome para cada uma: Paula, Lu, Midori, Carol, Mana, Daniela, Márcia e assim por diante...Os sobrinhos, de pura sacanagem, apagaram os números. Titia, que não conseguia mais identificar quem era Greiciane, Fabíola, Maiara, foi à loucura. Naquela noite, teve pesadelo. Deu um grito medonho que ecoou pela madrugada, acordando os vizinhos da rua 3:  

- “Nãããão! Minha mão nãããããão!

O Neném deu um pulo da rede e correu pro quarto dela. No caminho, no corredor escuro, tropeçou no velocípede do Serginho e entrou gemendo, com a canela doída:

- Ai, ai, ai, o que foi, titia?

Titia interpretou o gemido do Neném como um gesto solidário:

- Você viu? Minha mão! Minha mão saiu voando pela janela como se fosse uma borboleta.

- Sua mão está aí, titia, colada no seu braço.

Acontece que titia havia dormido com a cabeça sobre o braço direito, que perdeu a sensibilidade e ficou formigando. Aí teve um pesadelo e sonhou que sua mão direita havia voado, batendo asas até o igarapé do Mindu, cantando como um passarinho: “Na mão direita tem uma roseira, abre a saia, mais faceira”.

No outro dia, a Heloísa, que havia estudado Psicologia com a professora Odaléa Frazão, no Instituto de Educação do Amazonas, arriscou uma interpretação do sonho. Sem marido, sem filhos, sem sequer ter tido um namorado com quem pudesse trocar um beijo, titia se considerava a mãe das garrafas. Impedida de falar com suas filhas, sentiu como se tivesse tido as mãos decepadas, que nem Fidelis Baniwa, o Joe Caripuna do Mad Maria.

Titia morreu logo depois, de desgosto, deixando na orfandade várias garrafas. Sua vida teria sido outra, se não tivesse sido molestada, em sua infância, por dois marmanjos ambiciosos, que só pensam em botar no dos outros. Descanse em paz, tia Raimunda!

Os moradores da rua 3 asseguram que a alma penada da titia continua vagando pela Cohab-Am do Parque Dez. Alguns chegaram a vê-la, vestida com sua batinha nordestina de florzinha, com as duas mãos nos quadris, como um açucareiro. Cuidado, que ela é capaz de vir puxar os pés dos dois assediadores. Te cuida, Belão! Te cuida, Prodent!

 

José Ribamar Bessa Freire – Taqui pra ti

03/12/2006 - Diário do Amazonas



Escrito por vera do val / inquieta às 10h10
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Cantilena II

Dorivaldo, Dorivaldo, que teu pranto me comove, do rijo do teu desejo me sobe um arrepio no peito, me conjura o respirar. Do calor que sinto tanto, do cheiro de sumidouro, do gorgolejo da boca vem um visgo de alcaçuz que persegue meu assombro até ele se finar.

Dorivaldo, Dorivaldo, ergo a barra do vestido, abro as pernas, grito alto, ofereço ao dedilhar. Que a baba da minha boca seja tão doce e certeira e o profundo da garganta engula teu espumar. E as pitangas dos meus peitos que te espocam na língua quente, escorrem sumo, rilha os dentes, sejam teu alimentar.

Vou depressa, Dorivaldo, que a urgência do meu corpo é atender todo teu fogo até ele se espraiar. Na forquilha das minhas pernas, no estrugido do gozo, no penar da minha sina, vem comigo embebedar.

 

Dorivaldo, Dorivaldo, que teu fogo me comove, me enche de febre os baixos, subo a saia, escorro as coxas e recolho teu penar.

 

Vera do Val



Escrito por vera do val / inquieta às 19h18
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Cantilena

 

Marinalva, Marinalva, que teu fogo me consome, do eixo das tuas pernas me sobe um esquentamento que se espalha no meu peito e afoga meu respirar. De tuas ancas redondas sai um cheiro de jambú, um ardido de pimenta, um sufoco dos meus ais.

Marinalva, Marinalva, sobe a barra do vestido, mostra as coxas, tremelicas, destroça o meu olhar. Quero os baixos do teu corpo, teu piar de passarinho, o estrebuchado do gozo ao apalpar dos meus dedos, teu gosto de quero mais.

Que as pitangas dos teus peitos me estalem de doce a língua, que tua boca formosa engula o meu chorar. Vem depressa, Marinalva, que fogo é coisa preciosa, vai que queimo, me ardo todo, nos quentes do teu olhar.

 

Marinalva, Marinalva,  que teu ardor me consome, me esfola a pele do corpo, sobe a saia, Marinalva, e afoga meu penar.

 

Vera do Val

Imagem - Chagall - O buquê ardente



Escrito por vera do val / inquieta às 01h19
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Lula e Marisa voltaram a caminhar pelas praias que banham a Base Naval de Aratu (BA) neste terceiro dia de descanso. Ouviu-se um ruído estranho. Era Olavo Bilac (1865-1918) revirando no túmulo. O poeta refez os velhos versos. Ficaram assim:  

 

Ora dizíeis que ouvir estrelas,

Decerto denotava perda do senso!

Aqui da tumba vos digo, no entanto,

Melhor ouvi-las do que engoli-las!

Na barriga, causam maior espanto...

 

Blog do Josias



Escrito por vera do val / inquieta às 09h59
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A pantera

Depois de ter andado bastante tempo de um lado para o outro, voltou a casa,  já com 50 anos. Trazia um bicho. Uma panterasinha negra de seis meses,  cheia de ternura, amizade e dentes. Então resolveu ficar sentado, olhando a televisão, os livros, alguma música e várias bebidas.

Três anos depois ou talvez um pouco mais, não estou certo, alguns amigos acharam graça ir visitá-lo. Foram.Bateram à porta. Aparecerem dois meninos a abri-la.  Dois meninos escuros, com dentes eficazes e sorriso amigo. Rosnavam ternamente.  

 

Mário Henrique Leiria



Escrito por vera do val / inquieta às 10h16
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Em agosto aconteceu uma coisa maravilhosa que não contei aqui. Fechei contrato com a Editora Martins Fontes para publicação do meu livro “O imaginário da floresta”. Deve estar nas livrarias Dezembro/Janeiro. Agora mais uma noticia feliz. Meu livro “Histórias do rio Negro” venceu o concurso “Prêmios Literários cidade de Manaus”. Deve ser publicado em breve.

Divido com meus parcos leitores essa alegria. Um livro só vive quando as pessoas o manuseiam e  lêm. Ele torna-se real, palpitante. Imaginar alguém me comprando em uma livraria é de arrepiar. Minha emoção é imensa. E fico muito feliz em dividi-la com os amigos. Àqueles que sempre me estimularam, revisaram infinitas vezes, discutiram, tiveram toda a paciência comigo, um abraço apertado.

Obrigada.

vera do val



Escrito por vera do val / inquieta às 10h53
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Pequena fábula urbana

Nos arrabaldes todos sabiam-no pela alcunha Pirilampo. O nome real, se alguma vez o tivera, perdera-se nas memorânsias do tempo e esquecitudes do álcool. Roupava-se de farrapos, lembrando na figura parca as sujessências da condição humana. Volumava o abdome em gostosas gargalhadas, vermelhando a face enquanto verdadeirava ilusões e sonhos às crianças, tornando-as felizes com aquelas fábulas inventadas. Aos adultos sorria sempre,um sorriso mal-halitoso e órfão de dentes, saudando com um deschapelar-se. Contrapartidamente, recebia os minguados cobres que lhe mantinham o ví­cio e a vida. Durante o dia, sombrava-se sob a proteção das marquises, assoviando alguma ária fantasiosa. À noite, habitava os vãos das pontes, camando-se em jornais antigos e úmidas peças de cartão. Sonharia?

Um dia veio a fábrica e foram-se as casas. E, com elas, as famílias desresidenciadas. Nunca mais teve platéia. Suas histórias e sorrisos perderam-se no silêncio do concreto. E jamais foi visto novamente.

 

 Ontem, descobri que encantou-se, transmutado em vaga-lume.

 

Marcelo D'Ávilla

Imagem - Chagall



Escrito por vera do val / inquieta às 18h59
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Estilhaço

 

Ela depositou, com cuidado, o amor morrente em um lindo vaso de vidro e o  mantém guardado na cristaleira espelhada. Todas as manhãs, logo ao acordar, se aproxima esperançosa, abre a tampa e espia dentro. Lá está o amor agonizando, todo tremulo e dolorido. Ela o acaricia devagarinho... Sussurra palavras doces, mas ele não a escuta mais. Fica lá, surdo à ternura dela, como um bom amor agonizante deve ser. Às vezes ele suspira um ai e ela corre pressurosa, para se quedar ferida quando ele emudece indiferente.

 

Até que um dia, enlouquecida, ela estilhaça o amor e enterra  o vidro no peito.

 

Vera do Val

Imagem – Chagall – Flowers and lovers



Escrito por vera do val / inquieta às 17h53
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Espera

Ela sabe que ele virá. Mais dia menos dia a solidão vai ameaçar engoli-lo todo e ele se lembrará. Sabe que ela vai estar lá, ela sempre está a espera dele desfiando sonhos intermináveis, quase rosários. Cada conta um riso, cada corrente um pranto e ela escreve quase gemendo, como quem tece uma mortalha. Vai fazendo ponto por ponto e exorcizando as dores, bordando o gozo e o riso com linhas vermelhas e amarelas. Titubeia nas azuis que acabam por explodir na ternura e  serenidade dos momentos de aconchego; as verdes ela deixa para as noites das vãs filosofias. A cor das serenatas ela tem dificuldade em escolher, como colorir  os tangos de Gardel? Como bordar Lupicínio sem o dourado do desejo?  Ela vai, lentamente, trabalhando atenta.  Borda o orgasmo em um ponto cheio, luzidio e prenhe, as entrelinhas ligeiramente rosadas, delicadas, como se ruborizassem. Os suspiros são nos matizes dos lilases, profundos e doces e os sussurros são brancos como lençóis de linho.

Até que chega a hora de bordar a saudade. Aí, então, espeta o dedo e borda em sangue.

 

E lá fica ela, embebedada e debruçada no oco da noite, a tecer a historia.

 

Vera do Val

Imagem – Klimt  - detail.

 



Escrito por vera do val / inquieta às 17h01
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